segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Sonhos antigos

Com o acumular dos anos dei por mim a ficar cada vez mais nostálgico e saudoso de tempos idos, quando a vida parecia ter uma duração infinita, com tempo de sobra para concretizar uma infinidade de sonhos. Actualmente alguns desses sonhos já foram concretizados, muitos foram definitivamente substituidos por outros diferentes, mas alguns mais persistentes ficaram em suspenso, aguardando pela altura certa para os concretizar. A vida não é estática e os sonhos também não o são, o que leva a que frequentemente essa altura certa demore bastante mais tempo a chegar do que inicialmente previsto.

A primeira moto que tive foi uma Vespa 50. Com ela aprendi a conduzir, cometi os maiores disparates, caí mais vezes do que me atrevo a confessar, fiz as primeiras viagens, diverti-me imenso e ganhei o gosto pelas duas rodas. Naquela altura alimentava o sonho de ter uma Vespa 200, que chegaria logo que tivesse a carta e dinheiro suficiente para a comprar. Não sei dizer ao certo quando é que me zanguei com as Vespas, mas ao longo do tempo a minha foi progressivamente perdendo o encanto e o sonho de ter uma 200 foi sendo ultrapassado por outros sonhos, ficando esquecido algures nas profundezas do meu subconsciente. 

As crises de meia idade têm destas coisas e se há pessoas que compram um carro de sonho ou trocam a mulher por um modelo mais recente, no meu caso voltei a sonhar com aquela moto que me marcou na minha adolescência. Só que agora já não era uma Rally 200 ou uma PX 200 que habitavam o meu imaginário, mas sim a prima indiana, uma LML Star 200 a 4 tempos. Há pouco mais de um mês e meio o sonho concretizou-se e passei a ser o feliz proprietário de uma belíssima LML vermelha.


Antes de sair do stand, os infames pneus indianos foram trocados por uns Michelin S1, a capa do banco passou a ser preta e levou um porta couves para aumentar a capacidade de transporte, indispensável para os meus futuros planos. O entusiasmo foi tão grande, que no final desse dia já tinha a rodagem feita e a indiana estava pronta para a primeira revisão.

Esta LML é tudo o que esperava e muito mais. Ao contrário da minha Vespa, trava relativamente bem, curva com bastante precisão e tudo funciona correctamente. O facto de ser nova contribui bastante para que isso aconteça, mas tinha algum receio de ter criado expectativas demasiado elevadas e de sofrer uma desilusão, o que felizmente não veio a acontecer.

Reencontrei aquele sorriso parvo que tinha quando comecei a andar de mota, voltei a apreciar o prazer de rolar devagar, com o punho esquerdo bastante torcido e o pé direito numa posição pouco ergonómica. Tudo o que julgava haver esquecido voltou num ápice e até quando entrei na reserva, inconscientemente baixei-me e rodei o manípulo da gasolina, num movimento tão automático como da última vez que o havia feito, há demasiados anos atrás.


As LML ganharam a alcunha de chamussas e os vespistas mais puristas juram que estas indianas jamais conseguirão chegar aos calcanhares das suas primas italianas. A verdade é que estas PX com aroma a caril enchem-me as medidas, com o seu preço contido, o seu motor a 4 tempos e todas as suas virtudes e defeitos.

A marca indiana conseguiu capturar o espírito original da Vespa que tive em tempos, transportando-me de volta à minha juventude e desenterrando boas recordações há muito esquecidas. Isso para mim valeu cada cêntimo que paguei por ela.

5 comentários:

  1. Pena que seja a 4T... Não dá para abarrotar a sério e gastar uma nota preta...
    De resto, o que se safa é que seja "bermelha"... A minha LaMeLas tem muito mais estilo e menos aberturas nos balons... (nuno_lopes)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Não precisa de abarrotar, toda a gente sabe que as bermelhas vêm de origem com uma dose de caril extra...

      Eliminar
  2. Desculpem a minha ignorancia, mas será possivel expilicar ... nem que seja em desenho a origem do nome Indiana ??? associado a uma mota de origem italiana?? sou uma naba nestas coisas e estas Vespas são mesmo a minha medida ... viva os italianos. : )

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Resumindo de forma bastante simples uma história relativamente complicada, na realidade, a minha scooter é uma LML e não uma Vespa. A LML é uma marca indiana, que durante bastante tempo teve ligações à Piaggio, tendo fabricado alguns modelos, que foram vendidos por cá com a marca Vespa. Quando terminou a associação à marca italiana, continuaram a fabricar as suas próprias versões da Vespa PX, que passaram a ser comercializadas com a sua própria marca, a LML. Mais tarde evoluiram esse modelo, alterando o chassis e introduzindo motores a 4t. A minha indiana é precisamente um desses modelos, uma LML Star 200 4t, construida na India, por funcionários com bigodes farfalhudos e um apetite por pizzas e lasanhas.

      Eliminar
  3. fantastique, vou ficar fã, assim que tiver verba vou alinhar a 100 nos funcionarios com bigodes farfalhudos e apetite por pizzas ( que já tenho ) et qui ça não venha uma LML.
    Gostei da resposta não podia ser mais esclarecedora e profissional.
    A brincar ,brincar ... no proximo verão já poderei partilhar esperiências de motar...
    obrigada pela resposta fico atenta ao Blog. :)

    ResponderEliminar