Com o acumular dos anos dei por mim a ficar cada vez mais nostálgico e saudoso de tempos idos, quando a vida parecia ter uma duração infinita, com tempo de sobra para concretizar uma infinidade de sonhos. Actualmente alguns desses sonhos já foram concretizados, muitos foram definitivamente substituidos por outros diferentes, mas alguns mais persistentes ficaram em suspenso, aguardando pela altura certa para os concretizar. A vida não é estática e os sonhos também não o são, o que leva a que frequentemente essa altura certa demore bastante mais tempo a chegar do que inicialmente previsto.
A primeira moto que tive foi uma Vespa 50. Com ela aprendi a conduzir, cometi os maiores disparates, caí mais vezes do que me atrevo a confessar, fiz as primeiras viagens, diverti-me imenso e ganhei o gosto pelas duas rodas. Naquela altura alimentava o sonho de ter uma Vespa 200, que chegaria logo que tivesse a carta e dinheiro suficiente para a comprar. Não sei dizer ao certo quando é que me zanguei com as Vespas, mas ao longo do tempo a minha foi progressivamente perdendo o encanto e o sonho de ter uma 200 foi sendo ultrapassado por outros sonhos, ficando esquecido algures nas profundezas do meu subconsciente.
As crises de meia idade têm destas coisas e se há pessoas que compram um carro de sonho ou trocam a mulher por um modelo mais recente, no meu caso voltei a sonhar com aquela moto que me marcou na minha adolescência. Só que agora já não era uma Rally 200 ou uma PX 200 que habitavam o meu imaginário, mas sim a prima indiana, uma LML Star 200 a 4 tempos. Há pouco mais de um mês e meio o sonho concretizou-se e passei a ser o feliz proprietário de uma belíssima LML vermelha.
Antes de sair do stand, os infames pneus indianos foram trocados por uns Michelin S1, a capa do banco passou a ser preta e levou um porta couves para aumentar a capacidade de transporte, indispensável para os meus futuros planos. O entusiasmo foi tão grande, que no final desse dia já tinha a rodagem feita e a indiana estava pronta para a primeira revisão.
Esta LML é tudo o que esperava e muito mais. Ao contrário da minha Vespa, trava relativamente bem, curva com bastante precisão e tudo funciona correctamente. O facto de ser nova contribui bastante para que isso aconteça, mas tinha algum receio de ter criado expectativas demasiado elevadas e de sofrer uma desilusão, o que felizmente não veio a acontecer.
Reencontrei aquele sorriso parvo que tinha quando comecei a andar de mota, voltei a apreciar o prazer de rolar devagar, com o punho esquerdo bastante torcido e o pé direito numa posição pouco ergonómica. Tudo o que julgava haver esquecido voltou num ápice e até quando entrei na reserva, inconscientemente baixei-me e rodei o manípulo da gasolina, num movimento tão automático como da última vez que o havia feito, há demasiados anos atrás.
As LML ganharam a alcunha de chamussas e os vespistas mais puristas juram que estas indianas jamais conseguirão chegar aos calcanhares das suas primas italianas. A verdade é que estas PX com aroma a caril enchem-me as medidas, com o seu preço contido, o seu motor a 4 tempos e todas as suas virtudes e defeitos.
A marca indiana conseguiu capturar o espírito original da Vespa que tive em tempos, transportando-me de volta à minha juventude e desenterrando boas recordações há muito esquecidas. Isso para mim valeu cada cêntimo que paguei por ela.